sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

tenho a nítida impressão de que sou parte pútrida de um parto ...

um feto, inquieto nascituro, gestado no ventre de toda ignorância ...

por entre lábios-vulva-mundo,
                                                    tenho contemplado a vida em toda sua extensão cruel
...
tento interpretar todo esse desencantamento mórbido para além das teorias físicas, matemáticas, filosóficas, sociológicas, metafísicas...

...
interpretar não com os olhos de doutores e seus rechonchudos vãos currículos, mas com o olhar de um menino mal educado...

sei, serei parido e abandonado neste chão e-mundo, maternidade caótica de uma surreal dimensão...

colho os dessabores dessas incertezas várias que me atraem para o inevitável  desconhecido...

imerso em uma mar de imbecilidade, tomo consciência de mim, das finitudes do existir, e me arrebento na atmosfera carregada de insensibilidades ...

e assim...

morrendo, vou nascendo.

chg



não posso ficar a vida inteira pendurado em teu seio...

tenho pressa.

não mamo... e teu músculo rubro pulsante do peito está cheio de amores outros

um dia, meus dedos exaustos - por não mais suportarem a dor da desilusão - hão de ceder

... então, tombarei no solo do deserto que acreditei sonho...

| morro atropelado por essa idiota paixão |

chg

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

...
com um dedo de vinho - alimento de formigas ébrias -,
o cálice esquecido na mesa é testemunha de um equívoco, de um desencontro...

aquele cálice tem o que sonhei em meu lábios: as digitais do teu batom carmim.

(formigas se embriagam do vinho, do meu corpo inerte)

- um brinde.

chg

domingo, 15 de janeiro de 2017

deixou-me
repentinamente, partiu

e o chão se abriu
e despenquei no vazio infinito

agora, em queda livre, teço asas com os cacos do que fora sonho

incessantemente    .

chg
... cheio de si, não se coube... explodiu.

(ninguém catou os cacos de sua existência vil...)

chg
frações dolorosas de tempo...

: o tempo das marés.

enches, cresces e vens
                              e teu toque,
                              onda morna, chega e beija meu cais...

depois, te vais.

chg
a pele tem pesado, é fato.

cada vez menos, desperto o desejo de quem tenho desejo

cada vez menos, minha face atrai lábios que saciem minha sede de beijo

cada vez mais, escondo meu riso por trás dessa carne marcada pelo tempo

cada vez mais, recolho-me em pensamentos sobre minhas andanças e as feridas do vento

bom seria se o tempo - esse martelo impiedoso, de meu corpo, algoz - ao invés de enrugar a minha matéria, a tornasse transparente, límpida, translúcida ...

assim, poderias - amor - contemplar a exuberância de minha alma...

assim, saberias - amor - que o mesmo tempo que me corrói as carnes tem esculpido o que de melhor posso ofertar-te: o que sou.

chg